Grandes Desafios das Fábricas do Futuro: uma engrenagem entre tecnologia e pessoas

08-01-2019
A ideia de que as tecnologias só fazem sentido se estiverem ao serviço das pessoas é consensual, quando se reúnem perspetivas de personalidades experientes na indústria nacional. A articulação destes dois eixos fundamentais para o sucesso das empresas é um dos grandes desafios que se coloca atualmente.

Na intervenção que teve na edição de 2018 da IN Conference INEGI, Francisco Almada-Lobo, CEO da Critical Manufacturing, elencou vários exemplos que mostram que os robôs não vão substituir as pessoas e deixou antever que a automação e a robótica podem vir a criar mais postos de trabalho do que levar à sua extinção. De salientar um caso da Mercedes, numa área em que fazia carros de luxo muito customizados, que levou à eliminação de toda a robótica que tinha na área da produção e à sua substituição por humanos, que eram o recurso mais flexível.

“Deixámos de ter trabalhos e fábricas com aquela visão – sobretudo na indústria automóvel – de automação completa e das chamadas fábricas lights out, em que não há pessoas e por isso pode-se desligar a luz, e passámos para situações em que temos os robôs colaborativos, ou até uma especialização dos robôs colaborativos que tem a ver com os robôs que têm auto-aprendizagem. Ou seja, em situações em que vem uma especificação de um novo produto que é preciso fazer, quem o faz pela primeira vez é um humano e depois há um robô que aprende”, explica Francisco Almada-Lobo.

Por outro lado, no que concerne à dinâmica da fábrica do futuro, o CEO da Critical Manufacturing alerta para o facto de haver a possibilidade de colocar produtos e máquinas a comunicarem diretamente entre si, devido à existência de sistemas ciber-físicos. “Vamos ter as fábricas do futuro a não fazerem produtos mas sim a venderem processos de transformação. Vão vender passos de transformação, tempo de transformação e vão-se auto-organizar de forma a conseguirem entregar os produtos ao cliente final. Este é um movimento em que há um paralelo quando se fala nas áreas de software e na evolução para o software as a service. Vai acontecer exatamente a mesma coisa na área industrial para o manufacturing as a service”, defende.

João Sousa, Professor do Instituto Superior Técnico (IST) e Investigador do Instituto de Engenharia Mecânica (IDMEC), questiona “como é que transformamos dados em informação? Informação é mais do que dados e nós queremos ir mais longe, nós queremos conhecimento. Será que as máquinas conseguem criar conhecimento?”, concluindo com a afirmação “eu acho que não, precisamos dos humanos para isso”.

Para o académico, esta parceria entre tecnologia e pessoas fará com que os humanos passem a ter tarefas mais interessantes – “em vez de apertarem um parafuso têm de conceber sistemas” – no entanto, têm de entrar na cultura digital. Isto é, interiorizar que esta nova dimensão trará benefícios a todos. “A empresa, o ecossistema, o país [vão ganhar] e, portanto, este investimento também é dizer a indústria 4.0 vai-me dar qualquer coisa e por isso é importante investir o meu tempo, os meus recursos, mesmo humanos, para que isto aconteça”, referiu João Sousa na edição de 2018 da IN Conference INEGI.

Joaquim Menezes, Presidente do Conselho de Administração da Iberomoldes e da Associação Europeia para as Fábricas do Futuro (European Factories of the Future Research Association/EFFRA), defende que a sua experiência lhe demonstra que os desafios se mantêm os mesmos. “São os de sempre porque assentam em três pilares base: as pessoas, a produtividade e a competitividade. Sem isto nós não conseguimos fazer andar as empresas”.

Segundo o empresário, o maior desafio está na aprendizagem. “Se nós não aprendemos todos os dias, realmente não vamos conseguir chegar a lado nenhum. É aí que temos o maior desafio quando falamos com as nossas pessoas e as formamos”. Nesse sentido, considera que se deve estar atento para perceber os processos que poderão decorrer da indústria 4.0, embora assuma ser crítico em relação ao termo. “Objetivamente já andamos há 40 anos nisto e, apesar de estarmos a evoluir todos os dias, há muita coisa que a automação e os robôs não vão resolver”, defende Joaquim Menezes.

Atento a esta revolução tecnológica sob o ponto de vista das suas implicações laborais, Manuel Carvalho da Silva, Coordenador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e antigo secretário-geral da CGTP-IN (Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses - Intersindical Nacional), acredita que é preciso “analisar a evolução do mercado de trabalho, combatendo os medos com a consciência de que a tecnologia não é o motivo único e primordial do desemprego”.

Manuel Carvalho da Silva relembra que houve elevado desemprego no país, na sua opinião devido a opções políticas e económicas, bem como à emigração de jovens qualificados e não devido às tecnologias. “É preciso uma análise sobre a realidade toda: económica, social, cultural. Sobre a estrutura da economia, do país e dos impactos sociais. Às vezes avança-se um projeto e diz-se que é preciso um estudo de impacto ambiental – e são necessários – mas também é preciso o estudo dos impactos sociais das tecnologias, porque a decisão tem de ser sempre política”, reforça o antigo secretário-geral da CGTP-IN.



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